Os últimos serão os primeiros

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(Atenção: contém spoilers)

Demorei quase 27 anos para assistir “O último tango em Paris”, um dos grandes clássicos do cinema. Às vezes me pergunto o porquê da demora em realizar certas atividades que considero imprescindíveis para minha vivência cultural, geralmente associadas aos livros que ainda não li, filmes que ainda não vi, lugares que não visitei e por aí vai.. e a resposta não poderia ser mais simples: certas coisas, talvez as mais importantes da vida, não se guiam pelo campo da razão.

E já disse e repito: pra mim, o grande trunfo do cinema está na contemplação pura e simples. Para viver um filme por inteiro, é preciso estar preparado pra ele.

E meu encontro com “O último tango…” não poderia ter se dado em momento mais propício.

Tenho paixão pelos filmes de Bernardo Bertolucci, pois a mim, revelam uma beleza um pouco desconexa da realidade, não óbvia – apesar de afeita à estética e, sobretudo, inquietante. E quando falo de beleza, não trato apenas daquela que se apresenta às retinas, mas sim da que brota escondida de suas histórias surreais, bizarras do ponto de vista moral, porém perfeitamente humanas. E bingo! Fez-se o encantamento. Quem não se lembra da paixão tão doentia quanto possível dos irmãos Isabelle e Theo em “Os Sonhadores”?

Fico pensando o quanto “O último tango em Paris” deve ter feito barulho quando foi lançado, em 1972. Muito se comenta sobre a polêmica cena de sexo anal entre Marlon Brando e a novata Maria Schneider que, de fato, é bem impactante. Mas sinto que a chave para os mistérios de Bertolucci, em vários de seus filmes e neste em especial, talvez esteja no caos emocional de seus personagens. Pessoalmente, meu acento platônico se identifica com arroubos românticos, histórias controversas e aqui explica-se porque “O último tango..” tornou-se um prato cheio para esta que vos escreve. Uma teia complexa de dramas, a metalinguagem (o filme dentro do filme), Paris em tons de sépia, vocabulário pornográfico, trilha sonora impecável, o fim trágico. E claro, uma atuação arrebatadora de Marlon Brando.

Fazer o que se vejo amor onde aparentemente há discórdia? Para mim, Bertolucci sempre há de abrir uma janela poética para o fantástico mundo das relações e suas infinitas possibilidades de acontececências.

https://www.youtube.com/watch?v=dNGM747PiVc

(escrito em setembro de 2014)

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